Tudo de errado na sociedade você encontra na sua tv

Eu gosto de acreditar que todo mundo busca, de uma forma ou outra, construir um mundo melhor. Melhor para si mesmo e para os outros.

Para isso, precisamos de serviços melhores, que as coisas funcionem direito, que todos tenham acesso aos recursos necessários para crescer na vida, certo? E é minimamente justo que todos tenham o mesmo nível de oportunidades na vida para obter o que quiser.

Vamos lá então. Queria analisar com você 3 comerciais recentes que eu gosto muito.

ImagemCampanha Hyundai HB20 (link na imagem). Eu comentei a respeito dessa no meu outro post.

Como todo comercial, ele tem como objetivo atingir o consumidor e se relacionar com ele.
Claro, ele tem que vender a quem o produto se indica. Vamos ver então o que ele diz.

Colegas de trabalho, bem vestidos mas não são os patrões, na pausa para o café. Pausa rápida, porque o movimento está intenso na empresa.
O cara da esquerda veste um terno fechado e enrustido. O da direita é mais descolado, tem até um cabelinho bagunçado. Uau!

Então ele conta seu fim de semana. Porque o outro perguntou, senão pareceria esnobe sair contando, né. Em 48 horas ele: passeou com o carro, tocou em uma festa, foi em um jantar exclusivíssimo com a namorada, assistiu uma partida de futebol, foi dj em uma balada, comprou uma penca de flores, desceu até a praia com a namorada e assistiu o pôr do sol de domingo com ela (imagino que depois ainda pegou a estrada de volta durante a noite e provavelmente comeu a namorada várias vezes, claro).

Uau, que fim de semana cara, tudo graças ao seu HB20.
O do colega? Deixa pra lá… provavelmente foi igual ao seu, querido consumidor. Olha como ele é fraco e patético.

Agora, quem cobiça um fim de semana completo assim, pode até me dizer que sabe que não precisa comprar um HB20 pra conseguir isso. Parabéns, você não é um completo idiota.
Mas me diz uma coisa, o outro cara que não quer isso tudo é tosco, né?
Quer dizer, a propaganda sugere isso. O problema não é ter um HB20, o problema é ser um tosco que não faz muita coisa no final de semana.

Agora, quem REALMENTE faz tanta coisa no final de semana? Acho que se contabilizar em horas, é humanamente impossível. Mas, pra você que gostaria de ter uma vida assim, que tal comprar um carro caro e importado pra fazer os outros pensarem que você tem tudo isso? Que tal um HB20?

Não te revolta que uma marca te diga como se comportar, qual a forma mais correta de se agir, a fim de te moldar como consumidor do produto dele, só pra que eles tenham lucro?
Não deveria ser ela que adapta sua comunicação a fim de atingir o que seu consumidor realmente quer?
Bem….

Imagem

Campanha Brahma Imagina. Uma das minhas preferidas.

Essa é fácil. Se você acha que a copa do mundo vai ser uma coisa ruim, então essa propaganda nem é pra você. Foda-se você, pode mudar de canal.
Eles nem pedem mais a sua atenção, aqui o consumidor já está pré selecionado e todo o resto que se lasque.

Mas se você quer a copa, se você IMAGINA a festa, aaahh meu amigo.
A Brahma é tua cerveja! Não escute os pessimistas, os chatos e incrédulos. O cara no trânsito, gordo e infeliz, a mulher certinha e enrustida, toda apertada no elevador, o gordo miserável no refeitório da empresa! Esses caras não tem jeito. Eles são rabugentos e pessimistas, não querem que você se divirta.

Mas a Brahma? Ah, a Brahma tá do seu lado amigão. A festa vai ser linda, e vamos estar lá com você. Então lembre-se de nós quando estiver vendo os jogos ou procurando uma norueguesa gata nas baladas.
Mas se beber, não dirija. Somos obrigados a dizer isso senão a coisa pode ficar feia.

Vamos também deixar pra lá que a Brahma tem gosto de mijo como todas as outras maiores do mercado brasileiro. Isso você já sabe, superou e continua bebendo estupidamente gelada. A mensagem é a copa, não o produto.

Tiro meu chapéu pra Brahma. Também pra agência África, que produziu o comercial. Afinal, não é só a Brahma que quer arrancar dinheiro né, tem gente sendo paga pra ser especializada nisso.

Imagem

Comercial Banco do Brasil Ourocard. Essa eu vi só uma vez na tv, mas representa 90% das campanhas de bancos.

De cara, Rodrigo Faro! Conhecido por seus conhecimentos sobre economia e gerenciamento de finanças, quem melhor para falar para o povo sobre o que fazer com seu dinheiro do que o apresentador do Domingão do Faustão B?
Muito bacana a ação do Banco do Brasil de fazer cartão com 3 cores! E até na vertical se você quiser! Olha os efeitos especiais que coisa legal, parece aquele clipe do Jamiroquai! Essa propaganda não é chata como eu esperaria de algo sobre um banco. Legal mesmo.

Quer dizer, eu não saquei muito bem as vantagens do cartão no sentido financeiro né. Ele só me falou que é 100% brasileiro e que tem uma anuidade que cabe no meu bolso. Não sei como ele sabe o que tem no meu bolso, mas vou entender isso como uma coisa boa.
Se não falou sobre taxas de juros e serviços é porque não tem, né?

E também, tudo bem! Olha o monte de coisas legais que ele comprou com o cartão! Bicicleta, violão, ipad, notebook e tv! Todo mundo precisa de um ipad E um notebook em casa né gente?

……………………….

Bom, daí você me pergunta o que isso tudo tem a ver com o que eu escrevi no começo.

Essas três campanhas representam bem a lógica da publicidade brasileira em uma grande maioria. Nenhuma delas fala sobre o produto ou serviço oferecido. Nenhuma delas fala como o produto contribui em sua vida. Todas elas estimulam o senso de diferenciação do consumidor. Você me consome e eu torno sua vida melhor que A DOS OUTROS.

Todo mundo quer se destacar, ser diferente, ser notado como único. Mas você precisa de um hyundai, tomar brahma e ter um ourocard verde a na vertical pra isso?
Sua diferenciação é para crescimento pessoal ou para não ser tratado como os outros seres pobres e inferiores?

Só um adendo à discussão. Você pode criticar toda a má influência que a tv exerce sobre a sociedade. Pode me falar que, se acho ruim isso tudo, é só desligar a tv.
Mas quando você quer que algo mude, você não vira as costas para o problema. Você encara ele dia após dia, tentando compreender porque aquilo existe.
Só porque eu assisto tv não significa que engula o que ela me diz. Só quero saber o que tanto atrai a 150 milhões de pessoas.

Anúncios