A percepção de um classe média sobre o capitalismo

“Não, você não vai ser neurocirurgião, então não vai ter uma Ferrari”, sentia uma versão minha aos sete anos de idade quando via uma Ferrari.

Essa deve ter sido a minha primeira impressão de compreensividade de como funcionava o capitalismo. “Se você trabalhasse e se esforçasse o suficiente durante a sua vida, você poderia ter uma Ferrari, excelência indiscutível entre os carros, como símbolo da sua capacidade diferenciada.”, traduzindo em termos mais elaborados.

Pensando agora, era um capitalismo que fazia sentido. O bom é reservado àqueles esforçados, o médio aos medíocres (sic), e quem estivesse satisfeito com a falta de necessidade de se esforçar mais na vida, poderia se satisfazer com o que era menos. É justo, não é?

Parecia justo, porque funcionava. Tudo bem que sempre houve corrupção durante toda a história, mas naquela época nossa ignorância total sobre aquilo era aceitável também.  Então tudo funcionaria, tinha essa segurança de que viver do meu jeito traria o conforto que eu merecesse.

Essa última parte é tudo o que sobrou em mim desses tempos. Eu acredito que o que eu tenho, das minhas coisas, é proporcionalmente igual ao tanto que eu me esforcei durante minha vida. Não sou nenhum mártir de sofrimento, mas também nunca fui irresponsável ou vagabundo. Honesto, como gosto de achar que todos aqueles que fazem o que precisa ser feito, faz com honestidade.

Mas isso não é suficiente pra me sentir bem. Porque eu sei que lá fora, tem gente que vive esse mártir e tem que se virar com uma cesta básica o mês inteiro. Que se mata pra conseguir colocar o filho em uma escola pública, e quando finalmente consegue, vê que de algum modo essa escola transformou ele em um viciado violento, que aquele seu filho que você quis tentar dar algo melhor, se influênciou com algo fora da sua família que o tornou corrupto, e agora todas as pessoas querem ver ele morto com um tiro na cabeça. É justo isso? Eu trabalho muito menos que essas pessoas e posso viver no que eu julguei justo pra mim?

Mas também tem o outro lado. É justo pra mim, que não tenho ainda condições de ter um carro meu, dentro do que considero ser responsável sobre quando adquirir um carro… é justo que eu veja gente que nunca se esforçou na vida porque foi rico a vida toda, ou que você sabe que trapaceu pra chegar lá, distorcendo a sociedade pra tirar vantagem da forma mais fácil e indecente que há… é justo que eu veja ele dirigindo uma Ferrari?

Classe média, eles me chamam… Eu estou ok com isso, é meu nível de esforço x recompensa.

Mas quando um rico ignorante e inconsquente pode atropelar um pai de família honesto e pobre, eu tenho medo de ser pego no meio de tudo. De que um filho desvirtuado de um casal pobre possa vir querer pegar meu celular medíocre e me dar um tiro por causa disso. É de eu cruzar com algum rico que possa querer me dar um golpe, ou me prestar um serviço de banco e me passar a perna. É de ver na tv dia após dia que estilos de vida impossíveis de se obter são o correto, e se você está abaixo disso, é motivo de vergonha pessoal. Como aquela propaganda de carro (nunca presto ateção no carro em sí, sempre no conceito da marca. Outra discussão), uma que o cara no trabalho pergunta pro colega como foi o fim de semana, daí o colega dá um flashback de baladas, festas, churrasco, namoro, praia, tudo dirigindo seu belo carro. Um fim de semana, 2 dias, 48 horas. Daí o colega desiste de querer contar do seu. Que provavelmente foi algo tipo um programinha light no sábado, coçar o saco no domingo, de repente visitar a família no lugar de uma dessas opções. E eu sou feliz com meus fins de semana, gosto de me sentir descansado, não faço a menor questão de grandes convenções como baladas e tal. Mas, vendo essa propagando dia após dia, do cara modelo bem sucedido, me faça achar que eu sou medíocre (sic?), e deveria ansear por mais.

Por que, se eu já decidi desde sempre que eu não queria tanto uma Ferrari pra me esforçar àquele nível? Dentro da minha bolha, eu estou feliz. Mas eu quero poder olhar lá pra fora e ver que todos estão felizes em sua conformidade também, que não preciso achar que, pra alguns, estou tendo tudo muito fácil, e para outros, estou sendo meíocre por não querer mais.

E foi aí que o capitalismo falhou completamente. Esse senso coletivo de injustiça. Pessoal costuma discutir qual o melhor tipo de sistema social e político. Capitalismo, socialismo, comunismo, anaraquia, ditatura, democracia,etc… Quando na verdade, em sua forma utópica, todas elas funcionariam bem. Em todas elas a população toda estará feliz.

Mas quando você escolhe viver em alguma delas, e ela falha, você precisa imediatamente partir para outra, ou criar uma nova.

Ultima vez que isso aconteceu, de verdade, foi quando? Revolução francesa acho…

É minha cultura classe média, que sabe fazer as referências políticas das coisas, mas não sabe instantaneamente referenciar com precisão ou grande diversidade erudita.

É aí que a educação também falha. Ensinamos já desde sempre que o esforço traz dinheiro, dinheiro dá ferrari etc e tal. Daí se eu escolho me esforçar, cursar direito, ter estudado muito mais do que eu estudei pra virar juíz e merecer minha ferrari, eu vejo que o Naldo de repente tem uma Ferrari. Ou que o servente de pedreiro, que trabalha 15 horas por dia e leva 3 horas pra chegar em casa, não tem dinheiro pra comer durante o mês inteiro.
Deveríamos ensinar desde cedo que o quanto você se esforça, você tem o que merece. Ensinar até os 18 anos, uma boa idade para realmente afirmar que uma pessoa tem consciência das próprias escolhas, o máximo possível sobre o máximo de coisas, sobre o maior número possível de pontos de vista. Ensinar as religiões, de forma igual, o que cada uma representa, ensinar filosofia, ensinar economia, matemática, ciência… para quando a pessoa tiver 18 anos, e tiver uma visão realmente boa de como a sociedade funciona, quais caminhos tomar para receber estilos de vida equivalentes aos seus esforços… poder decidir qual o satisfaz mais, e pronto. Eu acredito que minha educação foi assim, por mérito da minha própria natureza distorcida da conformidade massiva, do tipo de menino que, de alguma forma, diferente de todos os seus amiguinhos, não gosta da galinha pintadinha aos 2 anos. Vai saber como isso acontece.

E aqui estou, médio, medíocre, feliz e com justiça. Mas o fato de eu ter essa capacidade de ver lá fora, como é a vida dos outros, onde pessoas que eu conheço intimamente tomam decisões ruins e acabam se dando bem na vida, e outras que tem atitudes mais norbes e esforçadas que as minhas não estão conseguindo ter metade do que eu.

Isso é o que me deprime mais que tudo.
Porque no final, pela visão da sociedade toda, eu sei que sou classe média alta, quase rico, e sinto que não mereço isso.

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