Conceito de produção independente de games (ou menos dependente)

Eu devia ter uns 14 anos de idade a primeira vez que senti que queria fazer games. Lembro de estar jogando Road Rash 3 pela milionésima vez, pensando em como faria uma versão modernizada para o Dreamcast, meu outro console. Contei a ideia em minúcias para meu irmão mais velho, que fazia faculdade de ciências da computação.

O discurso que veio em seguida sobre como poderia me tornar um desenvolvedor já desanimou. Teria que aprender programação, cursar ciências da computação como ele, que odiava o curso (depois ele mudou para jornalismo), e matou a ideia por uns bons anos quando meus pais, que já se preocupavam o quanto eu era “viciado” demais em jogos, determinaram que isso não seria uma trabalho de verdade e eu estava inventando história pra viver no videogame. Esse foi o primeiro desvio.

Muito bem, já chego ao ponto… depois de diversas experiências fracassadas em outras áreas, criaram a faculdade de Games da Anhembi Morumbi. Entrei na terceira turma, com a condição de que eu teria que bancar o curso sozinho. Lá eu me desenvolvi em dois campos: conceitualizar e administrar a produção de um game (considerando que a cada 6 meses o nosso grupo deveria praticamente criar um game novo, que sempre ficava uma merda e incompleto), e descobri que me dava bem com animação.

Foi só no penúltimo ano do curso que eu consegui um trabalho fixo sem ser estagiário. Era motion designer em uma agência de publicidade. Estava ganhando muito melhor que qualquer um que milagrosamente conseguia algo com games, estava evoluindo muito mais rápido em motion design dentro do trabalho e meus chefes me ofereceram pagar cursos técnicos focados em motion. Foi aí, no último ano, que resolvi abandonar a faculdade e me focar naquilo que dava dinheiro e “futuro”. Meu segundo desvio.

Entre umas e outras, sempre quis fazer games. Sempre fiz games, tenho dezenas de conceitos na minha cabeça e escritos, jogos inteiros pensados no papel. Não desenho bem, minha programação é básica demais e, conforme o tempo ia passando, ficava cada vez mais impossível eu me dedicar exclusivamente a isso. Fiquei 5 anos trabalhando exclusivamente como motion designer para publicidade, sempre procurando brechas para fazer game, e sempre morrendo antes de começar.

Os motivos para morrer são bem comuns a todos: ou os envolvidos não tem tempo para produzir, enrolados em trabalhos e freelas, e a ideia morre, ou os envolvidos não se interessam pela ideia a ponto de fazer o sacrifício, ou simplesmente não sai dinheiro de lugar nenhum para pagar um profissional na hora que a ideia for morrer.

Não sei se é alguma crise de meia idade precoce ou coisa assim, mas já fazem uns 3 ou 4 meses que determinei que a minha última ideia vai ter que acontecer de qualquer jeito. Então comecei a refletir sobre minhas experiências.

Primeiro: reconheci as minhas próprias fraquezas como definitivos impedimentos para fazer um jogo sozinho. Preciso de alguém que desenhe e preciso de alguém que programe, pra começar.
Segundo: abri mão da necessidade de querer ganhar milhões com um jogo, focando essencialmente em produzir algo bom.
Terceiro: me conformei que, por enquanto, é impossível para mim me dedicar exclusivamente a isso, e provavelmente também para quem for trabalhar comigo. O risco é inevitável.

Acredito que a maioria dos profissionais dessa área tiveram alguma experiência semelhante à minha na parte de começar a trabalhar e ganhar mais dinheiro dentro da publicidade. É só ver, é o mercado que mais movimenta dinheiro dentro de uma “produção criativa”, o nível técnico de produção é muito superior a qualquer outra área de produção cultural nesse país.
O mais interessante dentro disso é que, dentro da minha experiência e esse pouco tempo recente que venho conversado com mais pessoas interessadas em games, é que um número gigante de pessoas tem essa vontade de trabalhar com games, e os mesmos impedimentos de tempo, dinheiro, etc.

Então, resumindo: preciso de outros profissionais comigo, mas é praticamente impossível conseguir alguém que trabalhe de verdade sem uma garantia e segurança de que seu esforço não será desperdiçado.
O que mais tem, na verdade, é gente que topa sua ideia e se entusiasma, mas nunca põe a mão na massa porque não tem tempo, vive cansado, tem um monte de freelas, etc…

Então me veio o primeiro conceito nesse modelo independente: investir em freelancers. Trabalho pago já é outra história, faz-se um contrato que obriga o artista a entregar o que foi proposto.
Mas sai caro… especialmente se eu tratar o freela como se eu fosse um cliente habitual, publicitário.

Mas eu gosto de pensar neste investimento como um “mecenato”. O freelancer vai receber para fazer aquilo que ele gosta, desenvolvendo games. É uma coisa que todos queremos fazer, ajudar, participar, e eu vou pagar por isso! Não é ótimo? Vou pagar menos que um cliente que quer que você crie uma ilustração para um banner da empresa de pregos e porcas dele, é verdade… mas não sei vocês, eu sempre odiei ter que fazer isso, receberia menos com todo gosto para fazer um game livre desse mercado publicitário.
Tem outra, o freelancer recebe créditos absolutos pelo seu trabalho, coisa quase inexistente em publicidade.
E mais, participação nos lucros e na produção total do jogo!

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Bom, vamos lá. Essa lenga lenga até agora foi para contextualizar minha lógica que já estou colocando em prática. Vamos falar de negócios.
Divido o investimento em três etapas: Protótipo, Produção e Comercialização.

Protótipo
Então temos uma ideia legal para um jogo, seja ele A ou AAA, que precisa sair do papel, mas ninguém vai sair gastando do próprio bolso a fortuna que vai custar tantos freelancers, muito menos receber investimento para uma ideia que está no papel. Bom, não sem ter que submeter a ideia completamente a quem estiver financiando.
Precisamos portanto de algo mais físico para juntar recursos e seguir para produção completa do jogo. Sintetize sua ideia nos elementos mais básicos como mecânica básica, arte principal e um pouco de level design, e desenvolva um protótipo simples, mas que expresse o potencial do seu jogo.

No meu caso, voltando ao modelo “mecenas”, consegui um bom ilustrador para desenvolver meu personagem principal a 40% do preço de varejo. Tenho um programador e um modelador dispostos a participar por conta própria do jogo, mas se isso não der certo, tenho um orçamento baixo e de fácil acesso (menos de R$ 5 mil) para desenvolvimento do protótipo em torno de 6 meses.
Esse dinheiro inicial é um risco que eu assumo sozinho. Não existe um modelo sem riscos. Se a ideia é boa, se tem potencial, vai valer a pena.
E mais, estou pagando pessoas que são especializadas e experientes em suas próprias áreas. Isso garante a qualidade técnica em todos os aspectos.
Juntei esse dinheiro vendendo minha alma para publicidade e é hora de investir em algo melhor.

Produção
Daí então temos um protótipo bonitinho, coisa de mais ou menos 5 minutos de jogo que ilustre da melhor maneira possível a sua ideia completa, o potencial de um jogo realmente bom. Com isso, fica bem mais fácil convencer outros a fazer seu jogo ficar pronto.
É hora de fazer o budget estimado completo do jogo. Caçar ilustradores, modeladores, animadores, programadores, pesquisar que tipo de investimento para divulgação e venda será feito, tudo… e colocar no papel o custo disso no tempo estimado de produção.

Essa parte se assemelha ao modelo tradicional de produção, mas com duas grandes diferenças:
Primeiro, quem trabalhar como freelancer determinará um valor fechado pelo seu serviço, independentemente do tempo que levar para ele ser feito. É lógico que isso é quase impossível de ser determinado com precisão, mas se torna justo e mais seguro para o artista, uma vez que ele está recebendo para participar de um projeto muito mais interessante que seus contratos habituais.
Segundo, economiza-se muito com a fragmentação da mão de obra e virtualização da empresa. Não há necessidade de se montar um local físico de trabalho, com máquinas e softwares e funcionários registrados e com salários fixos. O único gasto será a manutenção de um virtual office, dos sócios (aqueles que trabalham no game sem receber como freela) e gastos mais burocráticos como registros, contabilidade, emissão de notas, etc.

Ainda assim, essa é a parte mais difícil do modelo. É necessário ter uma boa visão do cronograma de desenvolvimento, organização e controle dessa mão de obra fragmentada, e o pior de tudo: conseguir o dinheiro orçado.
É imperativo também que fique determinado definitivamente quem será sócio e quem será freelancer no projeto, e tudo determinado em contrato.
Com o protótipo e o projeto em mãos, daí vale tudo. Meu ideal de sequência para obter os fundos é: self-funding, investidor anjo, financiamento empresarial e crowdfunding, sucessivamente. Isso porque o ideal é juntar todo o orçamento de uma vez antes de investir na produção.
É claro que isso irá variar muito dependendo do custo do projeto. Jogos mais casuais e mobiles podem conseguir somente com crowdfunding, enquanto projetos AAA precisariam de muito mais trabalho e esforço para vender o peixe e juntar o dinheiro.
Meu projeto se enquadra mais de nível AA. Meu orçamento estimado fica entre 200-300 mil. É um investimento pesado, mas não é uma coisa absurda se for pensar nos tipos de investimentos que tem por aí. É difícil, mas é factível.

Comercialização
Custos de divulgação, plataformas de suporte, sites, bancos de dados (caso necessários) devem estar todos orçados dentro da produção, mas entram em prática mais agora que seu jogo está quase pronto. Como distribuir os lucros?
Primeiro, todos os lucros brutos serão usados para quitar dívidas e devolver financiamentos e investimentos. Depois, para cobrir gastos e prejuízos imprevistos da empresa virtual. Somente então o dinheiro começa a render como um lucro líquido.

Esse líquido é dividido igualmente entre os sócios da empresa (aqueles que não receberam para trabalhar) e uma parte para os freelas, divida entre todos eles igualmente.

Colocando tudo em números bem grosseiramente: foi gasto 300 mil para produzir e comercializar um jogo em 2 anos e meio, a partir do desenvolvimento final do jogo. Vendendo a R$ 30,00, com lucro de R$ 12,00 (40% no steam, por exemplo), com uma estimativa de 50 mil cópias no primeiro ano (desde lançamento, passando por promoções e humble bundles), tem-se um lucro bruto de 600 mil. Descontado os gastos de produção e financiamento, sobra 300 mil para dividir entre os sócios, que podem optar por vender sua parte e ficar com o dinheiro ou investir em caixa para o próximo jogo, e uma parte para os freelas colaboradores. Exemplo, se a empresa tem dois sócios e dez colaboradores, os sócios “recebem” 100 mil, e cada colaborador 10 mil (100/10) como “bônus”, além do que já recebeu como freelancer.

Esses valores são bem realistas e ainda arredondados por baixo. Tomei como base os valores divulgados do game “Dust Force”, que eu classificaria entre A e AA.
http://hitboxteam.com/dustforce-sales-figures
Além de outros dados semelhantes:
http://www.coldbeamgames.com/3/post/2012/11/november-26th-2012.html
http://www.slideshare.net/simoniker/independent-games-sales-stats-101

A ideia ainda está bem crua em suas minúcias. É claro que ainda é extremamente difícil, e a parte mais difícil de todas que é conseguir o dinheiro vai continuar sendo uma questão quase de sorte.
Mas é um modelo com menos riscos e mais incentivos para os participantes. Precisa de coragem, criatividade e dedicação para os sócios, mas também dá uma flexibilidade para prazos e mão de obra. É um grande gasto único, mas muito pouco gasto fixo e constante, tempo se torna um inimigo mais brando.

Minhas maiores dúvidas sobre o sucesso disso são as seguintes:
– Será que consigo juntar para produção R$ 300 mil, como no exemplo, de qualquer forma possível?
– Será que interessa aos freelas, em caso de sucesso, receber 30 mil por três anos de trabalho no projeto? (soma do valor de produção com participação dos lucros estimados)
– Será que as pilhas burocráticas entre a formação do escritório virtual, obter os financiamentos, registrar a empresa neste modelo, receber os lucros, devolver para os investidores, manutenção de caixa da empresa e distribuição dos lucros líquidos, não vão impedir o modelo de ser possível?

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Tudo de errado na sociedade você encontra na sua tv

Eu gosto de acreditar que todo mundo busca, de uma forma ou outra, construir um mundo melhor. Melhor para si mesmo e para os outros.

Para isso, precisamos de serviços melhores, que as coisas funcionem direito, que todos tenham acesso aos recursos necessários para crescer na vida, certo? E é minimamente justo que todos tenham o mesmo nível de oportunidades na vida para obter o que quiser.

Vamos lá então. Queria analisar com você 3 comerciais recentes que eu gosto muito.

ImagemCampanha Hyundai HB20 (link na imagem). Eu comentei a respeito dessa no meu outro post.

Como todo comercial, ele tem como objetivo atingir o consumidor e se relacionar com ele.
Claro, ele tem que vender a quem o produto se indica. Vamos ver então o que ele diz.

Colegas de trabalho, bem vestidos mas não são os patrões, na pausa para o café. Pausa rápida, porque o movimento está intenso na empresa.
O cara da esquerda veste um terno fechado e enrustido. O da direita é mais descolado, tem até um cabelinho bagunçado. Uau!

Então ele conta seu fim de semana. Porque o outro perguntou, senão pareceria esnobe sair contando, né. Em 48 horas ele: passeou com o carro, tocou em uma festa, foi em um jantar exclusivíssimo com a namorada, assistiu uma partida de futebol, foi dj em uma balada, comprou uma penca de flores, desceu até a praia com a namorada e assistiu o pôr do sol de domingo com ela (imagino que depois ainda pegou a estrada de volta durante a noite e provavelmente comeu a namorada várias vezes, claro).

Uau, que fim de semana cara, tudo graças ao seu HB20.
O do colega? Deixa pra lá… provavelmente foi igual ao seu, querido consumidor. Olha como ele é fraco e patético.

Agora, quem cobiça um fim de semana completo assim, pode até me dizer que sabe que não precisa comprar um HB20 pra conseguir isso. Parabéns, você não é um completo idiota.
Mas me diz uma coisa, o outro cara que não quer isso tudo é tosco, né?
Quer dizer, a propaganda sugere isso. O problema não é ter um HB20, o problema é ser um tosco que não faz muita coisa no final de semana.

Agora, quem REALMENTE faz tanta coisa no final de semana? Acho que se contabilizar em horas, é humanamente impossível. Mas, pra você que gostaria de ter uma vida assim, que tal comprar um carro caro e importado pra fazer os outros pensarem que você tem tudo isso? Que tal um HB20?

Não te revolta que uma marca te diga como se comportar, qual a forma mais correta de se agir, a fim de te moldar como consumidor do produto dele, só pra que eles tenham lucro?
Não deveria ser ela que adapta sua comunicação a fim de atingir o que seu consumidor realmente quer?
Bem….

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Campanha Brahma Imagina. Uma das minhas preferidas.

Essa é fácil. Se você acha que a copa do mundo vai ser uma coisa ruim, então essa propaganda nem é pra você. Foda-se você, pode mudar de canal.
Eles nem pedem mais a sua atenção, aqui o consumidor já está pré selecionado e todo o resto que se lasque.

Mas se você quer a copa, se você IMAGINA a festa, aaahh meu amigo.
A Brahma é tua cerveja! Não escute os pessimistas, os chatos e incrédulos. O cara no trânsito, gordo e infeliz, a mulher certinha e enrustida, toda apertada no elevador, o gordo miserável no refeitório da empresa! Esses caras não tem jeito. Eles são rabugentos e pessimistas, não querem que você se divirta.

Mas a Brahma? Ah, a Brahma tá do seu lado amigão. A festa vai ser linda, e vamos estar lá com você. Então lembre-se de nós quando estiver vendo os jogos ou procurando uma norueguesa gata nas baladas.
Mas se beber, não dirija. Somos obrigados a dizer isso senão a coisa pode ficar feia.

Vamos também deixar pra lá que a Brahma tem gosto de mijo como todas as outras maiores do mercado brasileiro. Isso você já sabe, superou e continua bebendo estupidamente gelada. A mensagem é a copa, não o produto.

Tiro meu chapéu pra Brahma. Também pra agência África, que produziu o comercial. Afinal, não é só a Brahma que quer arrancar dinheiro né, tem gente sendo paga pra ser especializada nisso.

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Comercial Banco do Brasil Ourocard. Essa eu vi só uma vez na tv, mas representa 90% das campanhas de bancos.

De cara, Rodrigo Faro! Conhecido por seus conhecimentos sobre economia e gerenciamento de finanças, quem melhor para falar para o povo sobre o que fazer com seu dinheiro do que o apresentador do Domingão do Faustão B?
Muito bacana a ação do Banco do Brasil de fazer cartão com 3 cores! E até na vertical se você quiser! Olha os efeitos especiais que coisa legal, parece aquele clipe do Jamiroquai! Essa propaganda não é chata como eu esperaria de algo sobre um banco. Legal mesmo.

Quer dizer, eu não saquei muito bem as vantagens do cartão no sentido financeiro né. Ele só me falou que é 100% brasileiro e que tem uma anuidade que cabe no meu bolso. Não sei como ele sabe o que tem no meu bolso, mas vou entender isso como uma coisa boa.
Se não falou sobre taxas de juros e serviços é porque não tem, né?

E também, tudo bem! Olha o monte de coisas legais que ele comprou com o cartão! Bicicleta, violão, ipad, notebook e tv! Todo mundo precisa de um ipad E um notebook em casa né gente?

……………………….

Bom, daí você me pergunta o que isso tudo tem a ver com o que eu escrevi no começo.

Essas três campanhas representam bem a lógica da publicidade brasileira em uma grande maioria. Nenhuma delas fala sobre o produto ou serviço oferecido. Nenhuma delas fala como o produto contribui em sua vida. Todas elas estimulam o senso de diferenciação do consumidor. Você me consome e eu torno sua vida melhor que A DOS OUTROS.

Todo mundo quer se destacar, ser diferente, ser notado como único. Mas você precisa de um hyundai, tomar brahma e ter um ourocard verde a na vertical pra isso?
Sua diferenciação é para crescimento pessoal ou para não ser tratado como os outros seres pobres e inferiores?

Só um adendo à discussão. Você pode criticar toda a má influência que a tv exerce sobre a sociedade. Pode me falar que, se acho ruim isso tudo, é só desligar a tv.
Mas quando você quer que algo mude, você não vira as costas para o problema. Você encara ele dia após dia, tentando compreender porque aquilo existe.
Só porque eu assisto tv não significa que engula o que ela me diz. Só quero saber o que tanto atrai a 150 milhões de pessoas.

A percepção de um classe média sobre o capitalismo

“Não, você não vai ser neurocirurgião, então não vai ter uma Ferrari”, sentia uma versão minha aos sete anos de idade quando via uma Ferrari.

Essa deve ter sido a minha primeira impressão de compreensividade de como funcionava o capitalismo. “Se você trabalhasse e se esforçasse o suficiente durante a sua vida, você poderia ter uma Ferrari, excelência indiscutível entre os carros, como símbolo da sua capacidade diferenciada.”, traduzindo em termos mais elaborados.

Pensando agora, era um capitalismo que fazia sentido. O bom é reservado àqueles esforçados, o médio aos medíocres (sic), e quem estivesse satisfeito com a falta de necessidade de se esforçar mais na vida, poderia se satisfazer com o que era menos. É justo, não é?

Parecia justo, porque funcionava. Tudo bem que sempre houve corrupção durante toda a história, mas naquela época nossa ignorância total sobre aquilo era aceitável também.  Então tudo funcionaria, tinha essa segurança de que viver do meu jeito traria o conforto que eu merecesse.

Essa última parte é tudo o que sobrou em mim desses tempos. Eu acredito que o que eu tenho, das minhas coisas, é proporcionalmente igual ao tanto que eu me esforcei durante minha vida. Não sou nenhum mártir de sofrimento, mas também nunca fui irresponsável ou vagabundo. Honesto, como gosto de achar que todos aqueles que fazem o que precisa ser feito, faz com honestidade.

Mas isso não é suficiente pra me sentir bem. Porque eu sei que lá fora, tem gente que vive esse mártir e tem que se virar com uma cesta básica o mês inteiro. Que se mata pra conseguir colocar o filho em uma escola pública, e quando finalmente consegue, vê que de algum modo essa escola transformou ele em um viciado violento, que aquele seu filho que você quis tentar dar algo melhor, se influênciou com algo fora da sua família que o tornou corrupto, e agora todas as pessoas querem ver ele morto com um tiro na cabeça. É justo isso? Eu trabalho muito menos que essas pessoas e posso viver no que eu julguei justo pra mim?

Mas também tem o outro lado. É justo pra mim, que não tenho ainda condições de ter um carro meu, dentro do que considero ser responsável sobre quando adquirir um carro… é justo que eu veja gente que nunca se esforçou na vida porque foi rico a vida toda, ou que você sabe que trapaceu pra chegar lá, distorcendo a sociedade pra tirar vantagem da forma mais fácil e indecente que há… é justo que eu veja ele dirigindo uma Ferrari?

Classe média, eles me chamam… Eu estou ok com isso, é meu nível de esforço x recompensa.

Mas quando um rico ignorante e inconsquente pode atropelar um pai de família honesto e pobre, eu tenho medo de ser pego no meio de tudo. De que um filho desvirtuado de um casal pobre possa vir querer pegar meu celular medíocre e me dar um tiro por causa disso. É de eu cruzar com algum rico que possa querer me dar um golpe, ou me prestar um serviço de banco e me passar a perna. É de ver na tv dia após dia que estilos de vida impossíveis de se obter são o correto, e se você está abaixo disso, é motivo de vergonha pessoal. Como aquela propaganda de carro (nunca presto ateção no carro em sí, sempre no conceito da marca. Outra discussão), uma que o cara no trabalho pergunta pro colega como foi o fim de semana, daí o colega dá um flashback de baladas, festas, churrasco, namoro, praia, tudo dirigindo seu belo carro. Um fim de semana, 2 dias, 48 horas. Daí o colega desiste de querer contar do seu. Que provavelmente foi algo tipo um programinha light no sábado, coçar o saco no domingo, de repente visitar a família no lugar de uma dessas opções. E eu sou feliz com meus fins de semana, gosto de me sentir descansado, não faço a menor questão de grandes convenções como baladas e tal. Mas, vendo essa propagando dia após dia, do cara modelo bem sucedido, me faça achar que eu sou medíocre (sic?), e deveria ansear por mais.

Por que, se eu já decidi desde sempre que eu não queria tanto uma Ferrari pra me esforçar àquele nível? Dentro da minha bolha, eu estou feliz. Mas eu quero poder olhar lá pra fora e ver que todos estão felizes em sua conformidade também, que não preciso achar que, pra alguns, estou tendo tudo muito fácil, e para outros, estou sendo meíocre por não querer mais.

E foi aí que o capitalismo falhou completamente. Esse senso coletivo de injustiça. Pessoal costuma discutir qual o melhor tipo de sistema social e político. Capitalismo, socialismo, comunismo, anaraquia, ditatura, democracia,etc… Quando na verdade, em sua forma utópica, todas elas funcionariam bem. Em todas elas a população toda estará feliz.

Mas quando você escolhe viver em alguma delas, e ela falha, você precisa imediatamente partir para outra, ou criar uma nova.

Ultima vez que isso aconteceu, de verdade, foi quando? Revolução francesa acho…

É minha cultura classe média, que sabe fazer as referências políticas das coisas, mas não sabe instantaneamente referenciar com precisão ou grande diversidade erudita.

É aí que a educação também falha. Ensinamos já desde sempre que o esforço traz dinheiro, dinheiro dá ferrari etc e tal. Daí se eu escolho me esforçar, cursar direito, ter estudado muito mais do que eu estudei pra virar juíz e merecer minha ferrari, eu vejo que o Naldo de repente tem uma Ferrari. Ou que o servente de pedreiro, que trabalha 15 horas por dia e leva 3 horas pra chegar em casa, não tem dinheiro pra comer durante o mês inteiro.
Deveríamos ensinar desde cedo que o quanto você se esforça, você tem o que merece. Ensinar até os 18 anos, uma boa idade para realmente afirmar que uma pessoa tem consciência das próprias escolhas, o máximo possível sobre o máximo de coisas, sobre o maior número possível de pontos de vista. Ensinar as religiões, de forma igual, o que cada uma representa, ensinar filosofia, ensinar economia, matemática, ciência… para quando a pessoa tiver 18 anos, e tiver uma visão realmente boa de como a sociedade funciona, quais caminhos tomar para receber estilos de vida equivalentes aos seus esforços… poder decidir qual o satisfaz mais, e pronto. Eu acredito que minha educação foi assim, por mérito da minha própria natureza distorcida da conformidade massiva, do tipo de menino que, de alguma forma, diferente de todos os seus amiguinhos, não gosta da galinha pintadinha aos 2 anos. Vai saber como isso acontece.

E aqui estou, médio, medíocre, feliz e com justiça. Mas o fato de eu ter essa capacidade de ver lá fora, como é a vida dos outros, onde pessoas que eu conheço intimamente tomam decisões ruins e acabam se dando bem na vida, e outras que tem atitudes mais norbes e esforçadas que as minhas não estão conseguindo ter metade do que eu.

Isso é o que me deprime mais que tudo.
Porque no final, pela visão da sociedade toda, eu sei que sou classe média alta, quase rico, e sinto que não mereço isso.